- Brasil - Rio De Janeiro - RJ - Bem Vindo(a)! -   Bem Vindo ao Funk Total Versão 6.0

Entrevista exclusiva: DJ Marlboro


Maior entusiasta e promotor do funk carioca, Fernando Luiz Mattos da Matta, também conhecido como DJ Marlboro, está com tudo. Apresentador do programa de maior audiência da rádio carioca , o Big Mix, de segunda a sábado na rádio “O Dia FM”, Marlboro embarca em julho para uma turnê pela Europa. "Acho que sou o artista com a maior agenda por lá", diz. Nessa entrevista exclusiva ao iGMúsica, ele fala sobre preconceitos (“O funk é o mais preconceituado e o menos preconceituoso dos gêneros musicais”), revela sua visão de casos polêmicos que prejudicaram a imagem do movimento, como a morte do jornalista Tim Lopes e o caso das meninas que engravidaram em bailes, e dispara: “sou uma unanimidade entre os DJs, todos me respeitam”.

Quando e como começou seu envolvimento com a música?
Meu interesse por música começou em 1977, 78, na época da discoteca, dos bailes soul, quando passei a acompanhar programas de rádio, lançamentos de discos. Mesmo sendo apenas ouvinte, eu era muito dedicado, tinha caderninho com anotações como lançamentos de disco, quanto tempo as músicas ficavam nas paradas... Eu era um estudioso solitário, mas queria compartilhar isso com os outros. Em 79, 80, comecei a mixar mesmo. Eu tinha várias idéias, não entendia porque música mixada só rolava em boate e nunca em baile funk. Em agosto de 80, toquei no meu primeiro baile profissional, numa casa em Lagoinha. Fiz muito bailinho de 15 anos e festinha antes disso, mas a data oficial é essa. Passava as tardes nessa casa treinando técnicas de mixagem. Aí, começaram os pedidos para tocar e outros bailes e a coisas foram acontecendo.

Depois te passar por vários momentos diferentes, que vão desde sucesso nacional à discriminação, como você enxerga a cena funk hoje em dia?
O funk já teve vários momentos glamourosos. Em 89 foi com o álbum “Funk Brasil”, 92 teve a explosão do Latino, do Copacabana Beach. “Rap da Felicidade” estourou em 94 e 95 e em 99 foi a vez do Bonde do Tigrão, do MC Serginho. O funk não precisa estar na moda para existir, não precisa de verba de ministro, ele é auto-suficiente e só precisa de liberdade, liberdade para tocar, para promover baile. Talvez por ter essa força que o funk provoca tanto preconceito. Nenhum gênero conseguiria resistir a tanto preconceito e mesmo assim continuar existindo. O Afrika Bombaataa (DJ americano responsável pelo surgimento do hip hop) me disse que o funk é o autêntico hip hop brasileiro. “É meu filho mais promissor”, ele falou.
Mesmo com muita resistência aqui, minha carreira internacional está rolando. Eu toquei no ano passado no Central Park, em Nova York, mas me proibiram de me apresentar no “Parque das Ruínas” (casa carioca do bairro de Santa Teresa que já serviu de palco para diversos músicos renomados e intelectuais). A carta do Ministério Público que vetou o evento é um absurdo de preconceituosa. Também fui convidado para tocar em Nova York na boate “Lótus”. O dono me justificou o convite dizendo que “quer introduzir o funk carioca na classe alta da cidade”; estou lançando quatro coletâneas na Europa e em julho começo uma turnê gigante por lá.

E musicalmente, como anda o funk?
Apesar de ter influência do Miami Bass, o funk feito hoje no Rio evoluiu muito, cresceu com a mistura de gêneros musicais da cultura brasileira. Mas também não foi só misturar gêneros, como funk e forró, e sim criar uma coisa nova, transformar tudo em algo novo.,

Você escreveu um artigo em que falava "sobre grandes batalhas contra aqueles que pretendiam implantar nos bailes situações abjetas, que repudiamos e conseguimos exterminar". Quem são essas pessoas e do que se tratam essas situações abjetas?

 

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  São pessoas que tentam denegrir a imagem do funk. O Tim Lopes, por exemplo, nunca morreu investigando baile funk. Isso está até no livro "Dossiê Tim Lopes - Fantástico/Ibope", do jornalista Mário Augusto Jakobskind e no laudo da investigação feito pelo Daniel (o inspetor Daniel Gomes, que foi o responsável pelas primeiras investigações do caso). Mas até hoje o pessoal associa a morte dele com o funk. O Daniel foi escalado pela Governadora para comandar a investigação porque a própria Globo o considerava o melhor investigador do país. Mas depois que a investigação foi concluída, afirmando que Tim Lopes não estava fazendo matéria sobre baile funk quando morreu, a Globo fez nota no “Jornal Nacional” de repúdio ao laudo do Daniel. A governadora foi obrigada politicamente a afastá-lo de alguns trabalhos e hoje ele move ação contra a Globo por danos morais. Ele não quer grana, ele quer ter seu direito de resposta. Tentaram denegrir a imagem dele, assim como denigrem o funk relacionando a morte do jornalista com o movimento. O bicho ta pegando! O Tim Lopes foi casado dez anos com uma mulher, teve um filho e depois se separou. Na época da sua morte, ele já morava com outra mulher há tempos. Essa mulher confirmou o laudo do Daniel, então a Globo transformou a ex-mulher dele em esposa oficial, já que ela não sabia de nada! A mulher que viveu com Tim há vinte anos foi quem deu entrevista, quem apareceu na imprensa, e a mulher que passou a angústia de esperá-lo uma noite toda e não tê-lo de volta foi ignorada por dizer a verdade!

Tem o caso das meninas que engravidaram em bailes funks. Eu entrei em contato com todos os jornais que publicaram entrevistas com essas supostas garotas atrás do telefones delas. Mas como eram menores de idade, os jornais não me passaram. Então recorri ao Siro Darlan (O juiz titular da 1ª Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro). Expliquei a situação, dizendo que estavam denegrindo a imagem do funk com informação sensacionalista. Ele mandou oficio para jornais, para a Secretaria de Saúde do Estado, para todos os órgãos envolvidos pedindo o telefone dessas meninas para investigação. Não foi feito um só contato. O único foi o de uma atendente de um posto de saúde que disse ter atendido uma menina com AIDS que teria engravidado num baile funk. Essa atendente não pegou nenhuma informação da menina, apenas sustentou essa história, que acabou virando uma verdade. Em tantos anos de funk na vida, nunca vi meninas engravidando em bailes!

Mas é difícil para quem tem uma visão de fora do movimento não desassociar a imagem do funk com o a violência...
A mídia generalizou. Na época existiam cinco, seis bailes violentos no Rio, mas se passou uma imagem de que tudo era violência. Na hora de combatê-los, a polícia fechou todos os bailes da cidade! Quando esses pitbulls brigam e matam em boate da Zona Sul, a polícia vai e identifica o cara. Mas quando é baile funk, generalizam. Porque acabar com baile é fácil, mas ninguém fecha todas as boates da Zona Sul. Mas como baile é diversão para pobre...

Você tem um programa diário com duas horas de duração. O que você mais toca? A produção carioca de funk é assim farta para completar duas horas no ar?
Para falar a verdade, falta espaço. Hoje poderia existir uma rádio com 24 horas de programação de funk.

O funk é muito criticado pela pobreza das letras. Qual sua opinião sobre isso?
Música é mensagem. As pessoas são boas ou más receptoras dessas mensagens. Pensa, quando você ouve Beethoveen, quando escuta a bateria de uma escola de samba, você não precisa de letra para se emocionar, para sentir tudo aquilo e se envolver. Música eletrônica também se capta sem necessidade de letra. Por que o funk então tem que ter letras elaboradas e tudo o mais? O funk é isso, aquela batida é suficiente para passar a mensagem!
E as letras do funk refletem o modo de vida de seus autores. As pessoas têm que conhecer muito funk antes de falar, porque há letras de todos os tipos. Há letra politizada, que fala do cotidiano do morador de favela; “Eguinha Pocotó” o Serginho fez para a filha, é uma música para criança!

Como o funk pode ajudar a molecada carente do Brasil?
Na década de 90 o funk era respeitado, a favela cantava para o asfalto. Quando o funk foi expulso do asfalto, voltou para a favela. As autoridades têm que liberar a volta dos bailes, porque quando a vida do morro é retrata como acontece no funk, a auto-estima da molecada aumenta...

Depois de tantos anos, o que você considera sua grande realização dentro do movimento?
O respeito que conquistei. Dei uma renovada nas técnicas de mixagem. Djs como Marky, Patife, Mau Mau me respeitam porque tenho uma técnica própria. Sou o único DJ de funk que transita por todos os gêneros. O DJ pode não gostar de funk, mas me respeita. Ninguém conseguiu essa unanimidade além de mim. É mais fácil ter respeito tocando techno, drum ‘n’ bass. Eu consegui esse respeito tocando funk, que é uma música discriminada.



Entrevista feita pelo IG Musica